Jun
não é sopa
por Márcia MeiraDia desses, acordei tão morocoxô, deprê mesmo, que o melhor remédio foi ficar quieta em casa, sem falar com ninguém. Mais tarde, quando bateu a fome me lembrei de uma sopinha de legumes que eu preparara na véspera e que, imediatamente, me fez lembrar de uma crônica da Nina Horta:
Comida de alma é aquela que consola, que escorre garganta abaixo quase sem precisar ser mastigada, na hora da dor, de depressão, de tristeza pequena. Não é, com certeza, um leitão pururuca, nem um menu nouvelle seguido à risca. Dá segurança, enche o estômago, conforta a alma, lembra a infância e o costume. É a canja de mãe judia, panacéia sagrada a resolver os problemas de náusea existencial. O macarrão cabelo-de-anjo cozido mole e passado na manteiga. O caldo de galinha gelatinoso, tomado às colheradas. São as sopas. O leite quente com canela, o arroz-doce, os ovos nevados, a banana cozida na casca, as gelatinas, o pudim de leite.
Resgatei o livro Não é Sopa (Companhia das Letras) na estante e estou, mais uma vez, apreciando suas histórias antes publicadas na Folha de S. Paulo.
A autora não faz crítica gastronômica nem trata das invencionices dos grandes chefs. Trata sim, do sabor dos pratos triviais, como purê de batatas, ovos mexidos, mingau de aveia. Fala da sua implicância com a abobrinha e todos da sua família: “um pepino deve ser cortado em rodelas finas, temperado co pimenta do reino e vinagre e daí jogado fora porque não presta para nada”.
Trata ainda da comida das grandes mestras, dos livros e filmes e da comida de rua, a chamada comida perversa: “aquela que você come sabendo que é brega e que faz mal. É autodestrutiva e gostosa. Está fincada no imaginário, mata a profunda fome do vulgar de cada um. É mais encontrada em botequins, padarias, nas lembranças de infância, em feiras, na rua”.
Nas quase quatrocentas páginas do livro, permeadas com displicência por receitas diversas, Nina traduz como ninguém o significado da cozinha: um lugar de memórias, experiências e conversas. É um livro divertido, de leitura saborosa escrito para quem gosta de cozinha e de comida.
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