19
Jun

não é sopa

por Márcia Meira

Dia desses, acordei tão morocoxô, deprê mesmo, que o melhor remédio foi ficar quieta em casa, sem falar com ninguém. Mais tarde, quando bateu a fome me lembrei de uma sopinha de legumes que eu preparara na véspera e que, imediatamente, me fez lembrar de uma crônica da Nina Horta:

Comida de alma é aquela que consola, que escorre garganta abaixo quase sem precisar ser mastigada, na hora da dor, de depressão, de tristeza pequena. Não é, com certeza, um leitão pururuca, nem um menu nouvelle seguido à risca. Dá segurança, enche o estômago, conforta a alma, lembra a infância e o costume. É a canja de mãe judia, panacéia sagrada a resolver os problemas de náusea existencial. O macarrão cabelo-de-anjo cozido mole e passado na manteiga. O caldo de galinha gelatinoso, tomado às colheradas. São as sopas. O leite quente com canela, o arroz-doce, os ovos nevados, a banana cozida na casca, as gelatinas, o pudim de leite.

Resgatei o livro Não é Sopa (Companhia das Letras) na estante e estou, mais uma vez, apreciando suas histórias antes publicadas na Folha de S. Paulo.

A autora não faz crítica gastronômica nem trata das invencionices dos grandes chefs. Trata sim, do sabor dos pratos triviais, como purê de batatas, ovos mexidos, mingau de aveia. Fala da sua implicância com a  abobrinha e todos da sua família: “um pepino deve ser cortado em rodelas finas, temperado co pimenta do reino e vinagre e daí jogado fora porque não presta para nada”.

Trata ainda da comida das grandes mestras, dos livros e filmes e da comida de rua, a chamada comida perversa: “aquela que você come sabendo que é brega e que faz mal. É autodestrutiva e gostosa. Está fincada no imaginário, mata a profunda fome do vulgar de cada um. É mais encontrada em botequins, padarias, nas lembranças de infância, em feiras, na rua”.

Nas quase quatrocentas páginas do livro, permeadas com displicência por receitas diversas,  Nina traduz como ninguém o significado da cozinha: um lugar de memórias, experiências e conversas. É um livro divertido, de leitura saborosa escrito para quem gosta de cozinha e de comida.

1
Jun

a vida dupla de um rebelde

por Márcia Meira

Faz um tempo que eu não escrevo sobre livros aqui, mas também faz um tempo que eu livro não me prende como o que acabei de ler a pouco: Rimbaud, a vida dupla de um rebelde (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 35,00).

Trata-se de um ensaio sobre um dos grandes gênios da literatura, tipo como o inventor da poesia moderna e um dos grandes mistérios da história da literatura. Pervertido, rebelde, bandido, aventureiro… esses são só alguns dos adjetivos que são facilmente são unidos ao nome da personagem que inspirou quase uma biblioteca inteira de teses, artigos acadêmicos e livros de crítica.

Precoce, o autor de “Uma temporada no inferno” compôs toda a sua obra antes dos vinte anos. Chocou a Paris da época, com a seu comportamento transgressor e sua atribulada relação com o poeta Paul Verlaine. Como não encontrou o reconhecimento que esperava, e com o fim dessa paixão tórrida – que acabou levando Verlaine para trás das grades -, Rimbaud fez inúmeras viagens, desistiu da poesia e partiu para a África, onde viveu os dez últimos anos da sua vida e dedicou-se ao tráfico de armas.

É um daqueles livros que prendem a atenção e não dá a menor vontade de largar. Recomendo para quem gosta de biografias e literatura.

6
Mai

minha casa: decoração ao seu alcance

por Márcia Meira

Adoro ler e consultar revistas, sites e blogs de decoração. É muito bom viajar um pouco com tantas alternativas bacanas de móveis, ambientes e objetos para a casa. Mas se há algo frustrante é gostar de um item e ao consultar o preço descobrir que o objeto custa uma pequena fortuna para os meus padrões. É como se alguém gritasse lá de dentro: “Sua pobre!!!!!”

Aí, vira uma saga: buscar um similar, mais barato e acessível, mas que, em geral, que não dá o mesmo efeito que eu vi na tal revista. Buááááááááá.

Não é incomum, depois de revirar a revista inteira, se dar conta que as suas posses só  estão à altura de um pratinho de porcelana sem graça usado na decoração de um ambiente, no meio de vários outros tantos lindos e caríssimos… É triste isso!

A editora Abril lançou este mês a revista Minha Casa que pretende ser uma referência de decoração e arquitetura para quem busca soluções econômicas. É a prima classe média das revistas Casa Claudia e Arquitetura & Construção.

Eu achei a idéia bacana, perfeita para quem quer decorar seu cantinho, mas tem um orçamento limitado e depende de alternativas mais baratas. A primeira edição está à venda por R$ 2,90. A partir da segunda edição a revista custará R$ 4,90.

23
Abr

favoritos: yo matias

por Márcia Meira

Quer praticar o espanhol e ainda dar boas risadas? É fácil! Basta ler as tiras do pequeno Matias, que são publicadas no jornal argentino Clarín.

Matias é um garotinho ingênuo e divertido que passa boa parte do tempo conversando com sua mãe, que assim como a professora do Charlie Brown (Snoopy), nunca aparece nas tiras. Lembra um pouco a Mafalda, pelo seu tom questionador, mas ao contrário da menina, Matias mantém-se distante do discurso politizado.

Aí você vai dizer: “Ah… que legal! Como vou ler as tiras do jornal argentino se moro aqui e na internet o site não dá acesso às tiras, Márcia?”

Existe um site onde você encontra boa parte das tiras publicadas no Clarín: é o Chistesclarin.com.ar . Lá estão as tiras de Yo Matias, desde 1999. É impossível ler uma só!

19
Abr

bordados – para ler numa única sentada

por Márcia Meira

Eu não li Persépolis, primeiro e mais famoso livro da iraniana Marjane Satrapi que inspirou um filme com o mesmo nome. Mas uma crítica na Folha de S.Paulo do último sábado me deixou curiosa para ler seu mais recente livro lançado pela Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia. Foi o que fiz: depois de uma corrida rápida até a livraria da esquina.

Bordados é um livro delicioso, ilustrado, divertido, bem-humorado, conta histórias de mulheres, mas sem ser feminista-chato de carteirinha. Recomendo! Ah… fiquei com vontade de ler/assistir Persépolis. Depois conto aqui como foi.

Os almoços de família na casa da avó de Marjane, em Teerã, terminavam sempre com o mesmo ritual: enquanto os homens iam fazer a sesta, as mulheres lavavam a louça. Logo depois começava uma sessão cujo acesso só era permitido a elas – o “bordado”.
O “bordado” iraniano seria equivalente ao brasileiríssimo “tricô”, não fosse uma acepção bastante particular: a expressão designa também a cirurgia de reconstituição do hímen, uma decisão pragmática para as mulheres que não abrem mão de ter vida sexual antes do casamento, mas sabem que precisam corresponder às expectativas das forças moralistas do país.
O grupo que se reúne na casa da avó de Marjane, é uma amostra de mulheres com moral e experiência bastante variadas, mas sempre às voltas com o machismo e a tradição, sobretudo depois da Revolução Islâmica (1979). Casamentos malfadados, virgindades roubadas, adultérios, frustrações, golpes e autoenganos, narrados com a ironia tão peculiar à autora, mostram que no Irã amar e desamar pode ser ainda mais complicado do que podemos supor.

Categoria: leitura
Tags:
1 Comentário »
10
Abr

na sala com danuza: leitura obrigatória

por Márcia Meira

Comecei a reler o delicioso “Na sala com Danuza”, livro de  Danuza Leão, que na época do seu lançamento figurou por meses na lista dos mais vendidos.

Anos atrás, quando o li pela primeira vez, gostei tanto que li diversos trechos em voz alta. Muito mais do que um manual de etiqueta este livro não apresenta regras, dogmas ou “mandamentos”.  “Este livro é resultado de como eu  vejo certos procedimentos, de como me parece que devemos nos comportar em certas situações, as tradicionais e as mais insólitas, com presença de espírito e bom senso”, explica Danuza logo na introdução.

Com muito bom humor, Danuza mostra ao longo das duzentas e poucas páginas da versão de bolso (Companhia das Letras, R$ 21,00) , como pequenos gestos melhoram o nosso dia-a-dia: “Gentileza não é artigo de luxo, mas de primeira necessidade.”

Com tanta grosseria que a gente vê por aí a fora (e aqui na internet), esse livro deveria ser leitura obrigatória. Para quem não leu vale a leitura, para quem já leu vale a releitura sempre! Abaixo um trechinho do capítulo dedicado à beleza:

O tempo, claro, não melhora a aparência de ninguém. Dizem que melhora a cabeça, mas ainda tenho minhas dúvidas. Aos vinte anos, a textura de nossas  unhas é tão fina quanto madrepérola; os cílios são longos; os cabelos, sedosos; os dentes, naturalmente claros etc. Bem, quando as coisas começam a piorar,você tem que pagar o preço que for para se cuidar. Isso custa paciência, perseverança, tempo, dinheiro, ma vale a pena. Nada para te jogar na mais horrenda depressão como olhar no espelho e enxergar um monstro.

Alguns cuidados não custam nada. Corrija sua coluna. Tenha uma postura ereta. Respire fundo, use toda a capacidade dos pulmões. Ande uma hora por dia. Beba litros de água. Cuide-se. Ame-se mais, muito mais do que a seu próximo. Nem todos têm a sorte de nascer deslumbrantes, com mãos e pés perfeitos etc., mas temos a obrigação de mantê-los sempre bem cuidados. Para ser gentil com os outros, para ser gentil com a gente mesma. Há paixões que acabam quando vemos pela primeira vez o pé do namorado. Ouviram, rapazes?

Lembre-se que não existe ninguém irremediavelmente feio e nada que não possa ser melhorado. Todos têm essa possibilidade, e é tão divertido! Sabe aquele dia em que parece que tem uma nuvem cinza bem em cima da sua cabeça? Pois nesse dia, mais do que nunca, acerte sua coluna, levante a cabeça e vá em frente. Não pergunte por quê – é atraso de vida –, apenas faça.

Fora a atenção dispensada à beleza, procure ser organizada. Existem mulheres cuja bolsa é tão bagunçada que dá a impressão de que dela vai sair um filhote de jacaré. Leve sempre na bolsa batom, pó (pó-de-arroz), lenços de papel, escova de dentes, dentifrício, fio dental, guaraná em pó, tranqüilizantes (para o caso de ver uma vitrine um vestido que te tire o fôlego), cartões de crédito, cash, talão de cheques, caneta, documentos e camisinhas, de preferência importadas. E tudo em ordem.

(…) Não se preocupe com a moda. Mas seja obsessiva com a elegância.

8
Mar

um dia como os outros

por Márcia Meira

Hoje é Dia Internacional da Mulher, pela frente já sei o que me espera: flores, cumprimentos, piadinhas (afinal, tem sempre um homem agradável que não perde a chance de dizer: esse é o dia de vocês, mas nós temos os outros 364…) Fora isso, é um dia como qualquer outro, com muito trabalho pela frente, nem eu gostaria que fosse diferente.

O que mais eu poderia escrever sobre o 8 de Março se ele me causa um certo constrangimento? Essa crônica da Martha Medeiros, da qual me lembro todos os anos, traduz muito bem o que eu penso: 

O que é ser mulher? Às vezes me perguntam isso em entrevistas e fico inclinada a responder que é nascer com cromossomos XX, mas não é esta a resposta que o entrevistador espera, é preciso entrar no espírito do debate, e responder que ser mulher é… ah, não consigo. 

Bem que tento entrar no clima do Dia Internacional da Mulher, mas esta data me emociona tanto quanto o Dia da Árvore. Um dia especial para refletir sobre nossa condição? Ora, não faço outra coisa o ano inteiro! 

Gosto muito de ser mulher mas não acho que sejamos mais especiais do que os homens. Ou mais maltratadas do que eles. Há gente feliz e infeliz dos dois lados do ringue. E se temos que lutar por melhores salários, mais segurança, uma vida mais digna, isso tem que valer para todos – que seja o dia internacional do ser humano, e não o dia internacional da choradeira. 

É claro que ainda há discriminação. Foram séculos de hegemonia masculina e isso não se muda do dia pra noite – e olha que em 50 anos mudou coisa demais. Voto, pílula, faculdade, independência financeira, liberdade sexual. Há mais ainda para ser conquistado, e será. Mas quem vai ajudar as mulheres são elas próprias, principalmente porque somos mães: mães dos futuros políticos, mães dos futuros genros de nossas filhas, mães dos futuros patrões delas, e mães delas mesmas, as futuras mulheres que queremos ver mais realizadas e respeitadas. A responsabilidade é toda nossa. Se acertamos ou erramos, se ganhamos mais ou ganhamos menos do que os homens, se somos tratadas com carinho ou com violência, tudo é decorrência das nossas escolhas e atitudes – e das nossas omissões. 

Num mundo com tamanha desigualdade social, claro que nem todas as mulheres têm esclarecimento e poder para assumir sozinhas seu destino. Então briguemos por elas, como fizemos quando a argeliana Amina foi ameaçada de ser apedrejada por ser mãe solteira. O governo africano recebeu uma avalanche de cartas pedindo sua “absolvição”, e deu certo.

Aquilo foi quando? Julho, setembro, novembro? Foi feito o que tinha que ser feito na hora em que se fez necessário. É assim que funciona. Fazemos nossa parte todos os dias de março, abril, agosto, dezembro, atendendo as demandas da vida, como árvores que somos, forças da natureza que não precisam de uma data única para lembrar aos outros nossa importância.

mais comentados

comentários recentes

  • Debora: hahahha Homem não vê diferença em nada mesmo! Para eles é tudo igual! Beijos
  • Fernanda Reali: Marcia, veja aqui: http://fernandareali.blogspot. com/2010/07/esmaltes-e-core...
  • Deizi: Márcia achei linda essa cor!
  • Gy Marques: Muito bem garotas, adoro dicas! Embora meu cabelo seja grande (preciso cortá-lo...
  • Ana Carolina: Achei bem parecido com o da risque, da arábia. Ainda não conhecia esse pier. Achei...
  • Ana Carolina: Ai… ultimamente tenho precisado de umas gotinhas com calmante e hidratante...
  • Cici: Eu fui na sample esses dias e peguei o acqua kids, mas ainda não testei, na próxima se...

últimos posts